Passos pesados ecoavam no corredor do Lar de Idosos Golden Sunset enquanto Adriano caminhava em direção ao quarto do pai.
Fazia muito tempo desde sua última visita ao seu pai, seu Lando. Ele sempre estava ocupado demais com o trabalho como CEO de uma grande empresa.
Ao entrar no quarto, viu o velho sentado em uma cadeira de rodas, olhando fixamente pela janela.
Estava magro, os cabelos completamente brancos.
“Pai?”, chamou Adriano.
“Pai, sou eu… o Adriano. Vim te ver.”
Seu Lando virou o rosto lentamente. Observou Adriano da cabeça aos pés.
Nenhuma emoção. Nenhum brilho de reconhecimento.
“Quem é você?”, perguntou o idoso.
“É médico? Eu não estou doente. Quero ir para casa.”
Foi como se uma faca atravessasse o peito de Adriano.
“Pai… sou eu. Seu filho. Lembra? Eu virei engenheiro… olha, trouxe o seu pão doce favorito.”
Seu Lando balançou a cabeça.
“Meu filho ainda é pequeno. Está na escola. Eu preciso buscá-lo.”
Durante horas, Adriano tentou fazê-lo lembrar do passado.
Mostrou fotos do carro novo, da casa, das conquistas que havia alcançado.
Mas era como conversar com uma parede.
O “Adriano” que seu pai conhecia era o menino Adriano dos anos 90.
Não o homem de terno parado diante dele agora.
Frustrado, Adriano se levantou.
“Vou embora por enquanto, pai. Volto outro dia… quando… quando o senhor estiver melhor.”
Ele já ia se virar para sair quando, de repente, seu Lando entrou em pânico.
O velho apalpou os bolsos com desespero. Ficou histérico.
“Minha carteira! Cadê a minha carteira?! Roubaram a minha riqueza!”, gritou.
Ele se agitava na cadeira de rodas.
As enfermeiras correram para dentro do quarto.
“Senhor Lando, calma, por favor!”
“Não! A minha riqueza! Sumiu! Eu não posso perder aquilo!”
Seu Lando chorava como uma criança a quem tiraram o brinquedo.
Adriano então viu uma carteira velha de couro caída embaixo da cama.
Ele a pegou.
“É essa aqui, pai?”, perguntou.
Seu Lando a arrancou de suas mãos imediatamente.
Abraçou a carteira com força, como se fosse ouro.
Adriano estranhou.
Sabia que o pai não carregava mais dinheiro. Já não lidava com notas nem cartões.
Que “riqueza” era essa de que ele falava?
“Pai, deixa eu ver o que tem aí dentro”, pediu Adriano.
“Vai que o senhor guardou algum remédio.”
Seu Lando não queria entregar, mas acabou cedendo.
Adriano abriu a carteira.
Não havia dinheiro.
Nenhum documento.
Nenhum cartão.
A única coisa dentro, no compartimento transparente, era uma fotografia antiga, amarelada pelo tempo.
Era a foto de um menino de uns sete anos, com um dente faltando, roupa simples e um sorriso enorme enquanto tomava sorvete na rua.
Era Adriano.
Quando ainda era criança.
Os olhos de Adriano se encheram de lágrimas. Ele olhou para o pai.
“Pai… por que só isso está aqui? Cadê o dinheiro?”
Seu Lando sorriu enquanto fitava a fotografia.
A confusão desapareceu de seu rosto. Sua voz ficou mansa.
“Eu não ligo para dinheiro”, disse o velho, acariciando a foto do pequeno Adriano.
“Tudo o que eu preciso está aqui. Esse é o meu Ian.”
“Por que o senhor carrega isso o tempo todo?”, perguntou Adriano, com a voz embargada.
“Porque…”, respondeu seu Lando, quase sussurrando para si mesmo.
“Porque eu estou ficando esquecido.”
“O médico disse que um dia tudo vai sumir da minha cabeça. Eu tenho medo… medo de acordar e não lembrar mais do rosto do meu filho.”
“Por isso eu carrego essa foto sempre comigo.”
“Mesmo que eu esqueça meu nome, mesmo que eu esqueça onde moro… quando eu abrir essa carteira, eu vou saber que sou pai.”
“E vou saber que amo esse menino.”
As pernas de Adriano cederam.
Ele caiu de joelhos diante da cadeira de rodas do pai.
E desabou em um choro convulsivo.
Aquele homem que ele pensava ter se esquecido dele era, na verdade, a pessoa que se agarrava com todas as forças ao último fiapo de memória que lhe restava, só para que o filho não desaparecesse do seu coração.
“Pai… sou eu… eu sou o Ian…”, chorou Adriano, segurando a mão do velho.
“Eu estou aqui. Não vou mais embora.”
Seu Lando o encarou.
Por um instante, pareceu que uma luz atravessou seus olhos.
O velho enxugou as lágrimas de Adriano com a mão enrugada.
“Shhh… calma”, murmurou seu Lando.
“Não chora assim. Você fica feio chorando… igualzinho quando caiu da bicicleta.”
Adriano soltou uma risada em meio ao choro.
Abraçou o pai com toda a força.
Naquele dia, mesmo que a mente de seu pai já não conseguisse reconhecê-lo por completo,
ele sentiu que jamais havia desaparecido da carteira — e muito menos do coração — daquele homem.
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Ele não conseguiu mais reconhecer o próprio filho por causa do Alzheimer… mas caiu de joelhos em lágrimas ao ver o que ainda guardava na carteira.
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